Capitulo Catorze

Vencido, Mas Não Convencido

1870 - 1878

Embora não seja propriamente literária, a narrativa escrita na fazenda Sapopemba adquire tinturas dramáticas à medida que se aproxima do final. Pode ser artifício de um veterano comerciante, versado nas artes da persuasão e do convencimento. Mas é difícil não ver naquela derrocada a dissipação de décadas de incansável perseverança. Ele descreve em minúcias as idas e vindas da política imperial e como os ziguezagues econômicos atingiram seus negócios em cheio. Seu banco seria forçado a pedir uma moratória e levaria anos para saldar suas dívidas.

Fazer baquear uma instituição de crédito que se achava em estado de solvência e que fazia sentir os benefícios de sua ação vivificadora por toda a parte onde as circunstâncias a chamaram, não parece a solução justa, destinada a um lidar contínuo, animado sempre dos mais altos propósitos.

Quando se observa que os negócios do empresário entraram em dificuldades quase ao mesmo tempo, no Brasil e fora dele, começa-se a perceber que a bancarrota não foi obra de incompetência de gestão, mas de um ambiente econômico que parecia mudar de maneira estrutural.

Nas obras da Estrada de Ferro Santos Jundiaí, os problemas se avolumaram. Irineu decidira tocar a empreitada por sua conta, enquanto o dinheiro acertado com os sócios ingleses não chegasse. Ele desconfiava ser vítima de uma fraude, cometida pelo escritório da empresa em Londres, na qual não faltariam laudos de execução dos serviços totalmente falsificados. No segundo semestre de 1867, ele calculou o crédito que a sociedade montada no exterior lhe devia: 600 mil libras esterlinas.

A cobrança vira uma verdadeira epopéia judicial. Os sócios ingleses contratam um dos mais caros e importantes advogados do país, João Crispiniano Soares (1809–1876), e conseguem arrastar a demanda por mais de dez anos nos tribunais. Crispiniano Soares havia sido presidente das províncias de Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo e seria mais conhecido por um de seus vários títulos, o de Conselheiro Crispiniano.

Enquanto corre esta batalha jurídica, em 1870, o Estabelecimento de Fundição e Estaleiros da Ponta de Areia encerra suas atividades, vitimado pela concorrência predatória com produtos importados.

Em 1877, o Supremo Tribunal de Justiça decide, de maneira inusitada, que o foro adequado para resolver a demanda seria Londres. Sem perceber como as coisas se desenrolariam do outro lado do Atlântico, Mauá chega a afirmar, em sua Exposição, ter “mais confiança nos tribunais ingleses”, sem se dar conta do que enfrentaria, anos depois. Mas lamenta-se dos descaminhos da ferrovia. “Foi ela a causa primordial de minha ruína – tal é a justiça dos homens.”

Mesmo vendo as pendências avolumarem-se à sua volta, Mauá não pára. Em agosto de 1872, obtém a concessão para a instalação do cabo submarino entre Lisboa e o Rio de Janeiro. “Foi esta uma idéia que me preocupou por longo tempo, causando-me uma verdadeira febre, o achar-se o Brasil segregado do mundo civilizado e alheio ao gozo do invento mais sublime que registra o século XIX.” O Barão resolvera apostar na grande novidade tecnológica: a possibilidade de conexão instantânea entre os dois lados do oceano.

O negócio era também de interesse da Inglaterra, que podia acompanhar os passos de suas colônias e possessões em detalhe.

Desde 1852, quando o primeiro cabo telegráfico dessa natureza ligara Londres a Paris, passando sob as gélidas águas do canal da Mancha, a possibilidade de conectar o mundo inteiro através dos sinais do código Morse tornou-se concreta. Outras capitais européias foram ligadas à sede do Império Britânico até o fim daquela década. Em 1863, Bombaim, na Índia, enviava seus sinais a Londres.

A empresa Brazilian Submarine Telegraph Company é constituída, tendo Mauá na diretoria. Em 22 de junho de 1874, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o Imperador Pedro ii inaugura o serviço, enviando mensagens à rainha Vitória, da Inglaterra, e a vários chefes de Estado.

Poucos dias depois, o Visconde do Rio Branco, então chefe do gabinete ministerial, bate à porta da residência de Mauá, em São Cristóvão, para onde este havia se mudado anos antes. Traz à mão o decreto imperial de 26 de junho, elevando seu título de Barão a Visconde. Rio Branco não conta ao amigo, mas a iniciativa da homenagem fora dele, e não de D. Pedro ii, que não simpatizava com Mauá.

O ex-caixeiro de Carruthers não ganharia um tostão com a conexão telegráfica. “Era minha resolução inabalável não traduzir em dinheiro essa concessão”, escreveu ele em correspondência particular.51

Nesses altos e baixos, Irineu Evangelista de Sousa passou por outro dissabor, em 1873, quando um gesto aparentemente sem maiores conseqüências resultou em uma derrota de outra ordem. A história precisa ser contada desde seu início.

Mauá elegeu-se suplente de deputado pelo Partido Liberal da província do Rio Grande do Sul, em 1853. Pouca gente votava nesses pleitos. O sufrágio era censitário, isto é, apenas homens acima de determinada faixa de renda podiam escolher seus representantes. Era um processo viciado e cheio de fraudes.

O empresário assumiu a cadeira dois anos depois, permanecendo na Câmara até 1867. Em 1872, seria reeleito. Não teve destaque especial como parlamentar e nem era homem de partido. Passava longos períodos fora do Rio de Janeiro. Ao que parece, a política institucional não era um terreno em que Irineu se sentisse propriamente à vontade. Não brilhava como orador e, nos embates em plenário, não costumava se sair bem.

Apesar de os partidos políticos do Império, o Liberal e o Conservador, não apresentarem diferenças de fundo em sua atuação, aconteciam acirrados enfrentamentos pela partilha do poder. Empresário de múltiplos e vastos interesses, Mauá pouco se importava com as fronteiras entre legendas. Articulava com tudo e com todos, de acordo com seu interesse imediato. Numa dessas situações, talvez por inabilidade ou talvez por soberba, ultrapassou alguns limites e acabou por sofrer um duro desgaste que o levou a renunciar seu mandato.

Em 1872, Mauá estava novamente em Londres e, mesmo assim, reelegeu-se pelo Rio Grande do Sul. A principal figura da agremiação na Província era o general e senador Manuel Luís Osório (1808–1879), herói da Guerra do Paraguai. Por sua influência, o empresário obteve novo mandato.

Um dos principais dirigentes liberais era Gaspar Silveira Martins (1834–1901), um gaúcho de 37 anos, arrogante e brilhante orador. Personagem mundano e magnético, figura corrente em saraus literários e nas confeitarias da rua do Ouvidor, Martins era o oposto de Mauá na política. Combativo, exuberante e centralizador, o jovem parlamentar desenvolvia uma implacável oposição ao ministério conservador, dirigido, desde 1871, pelo Visconde do Rio Branco.

O gabinete duraria mais de quatro anos e seria o mais longo de todo o período imperial. Um ministério nessa época não tinha tempo de duração definido. Dependia da sustentação política que encontrasse. A primeira gestão de Zacarias de Góes e Vasconcellos, em maio de 1862, por exemplo, durou cinco dias. Rio Branco mudou vários parâmetros do Estado. Fez aprovar a Lei do Ventre Livre, em 28 de setembro de 1871, promoveu uma reforma judiciária, definindo vários direitos, como a ampliação do habeas corpus e a regulamentação da prisão preventiva.

Como visto, Mauá era íntimo do chefe do gabinete, que o havia auxiliado durante os conflitos no Prata e o agraciado com o título de Visconde. Querendo cumprimentar o amigo, o empresário subiu à tribuna, em 27 de janeiro de 1873, e lhe fez uma calorosa saudação, prometendo apoiá-lo publicamente.

Os conservadores, com ampla maioria na Câmara, aplaudiram efusivamente. Mas Silveira Martins não se conformou. Pediu a palavra e investiu com toda a fúria contra Irineu. “Traição”, “defecção”, “apostasia” foram os termos usados pelo jovem gaúcho contra o pioneiro da estrada de ferro. Publicou artigos em jornais, moveu uma verdadeira campanha de desgaste e lançou um desafio. Devia ter dito isto aos eleitores. (…) Apelemos aos eleitores. Se eles julgarem que eu não cumpro o meu mandato, resigno o lugar. Faça vossa excelência o mesmo, desafia o empolgado orador, buscando disciplinar o Partido Liberal.

Mauá aceitou o repto e a consulta é feita meses depois entre o diminuto eleitorado apto a votar na Província. De um total de 206, 112 condenam a atitude de Irineu. Sem opções, o empresário renuncia ao mandato em abril de 1873. A hora não podia ser pior. Ele colhia um desgaste numa hora em que os negócios não iam nada bem. E a conjuntura geral pioraria dois anos depois.

Uma nova crise monetária atingiu o Brasil em 1875. As contas públicas exibiam déficits insanáveis. O governo adotou uma política deflacionista e recolheu um quinto do meio circulante do país. O quadro de distúrbios se agravou com a violenta seca de 1877 no Nordeste do país.

Em maio, o Banco Mauá & Cia. suspende todos os seus pagamentos. Para fazer frente à situação, o Visconde pede um financiamento de três mil contos ao Banco do Brasil. Como garantia, oferece o dobro desse valor em ações de sua Companhia Agrícola e Pastoril, lançada dois anos antes no Uruguai, na Argentina e no Sul do Brasil. O dinheiro é destinado a saldar débitos na praça londrina. O Banco do Brasil, no entanto, nega o empréstimo.

Mauá tem dúvidas sobre as causas da negativa. Primeiro pensa ter sido o rigor estatutário da instituição oficial a impedir a negociação. Depois, diz tratar-se de intriga de um desafeto seu, que exercia cargo na direção do banco. Seja como for, sem ter como fechar as contas, o resultado é um pedido de moratória – uma modalidade de concordata preventiva – por três anos, a partir de maio de 1875. De acordo com a legislação da época, este era o tempo máximo para a medida. Findo o prazo, se não houvesse recuperação da empresa, era requerida sua falência pelos credores. Os de Mauá eram mais de três mil, espalhados pelo Brasil e pelo exterior.52

Desde então, não obstante, dei por finda a minha carreira financeira, pois não podiam ocultar-se-me as conseqüências do desastre.

A vida econômica e empresarial de Mauá seguia de perto as oscilações do Império. Quando este chegou ao seu auge, em 1860, o financista estava em seu melhor momento. A partir de 1870, quando apareceram os sinais da crise que desembocaria na República, os empreendimentos do Visconde entraram em sua definitiva rota descendente. Durante a moratória, Mauá saldou dois terços de seu passivo.

Os problemas do banco já haviam caído na boca do povo e piadas não faltavam. O teatrólogo Artur Azevedo (1855–1908), em sua peça de teatro de revista O Rio de Janeiro em 1877,53 apresentava o seguinte diálogo:

MAJOR: – Meus senhores, venho implorar a sua caridade… Qualquer cosa me serve… Umas calças… até uma casaca me faz conta… mesmo das viradas… se é que há algumas por aqui… (…) Vamos, meus senhores, qualquer cosa serve.
ZÉ: – Eu só lhe dei um cheque para o Banco Mauá.
MAJOR: – Depois que levou o xeque-mate, é quanto de mau… há.
ZÉ: – Pois se lhe não serve…

Mauá está nos últimos parágrafos de sua Exposição aos credores. À medida que avança, seu texto adquire um misto de relato dos fatos e viva indignação. A narrativa adquire consistência.

A falência significava apenas torcer o punhal que me haviam cravado em 17 de maio de 1875 [data da decretação de moratória], para que a dor fosse mais funda. Foi isso que se proferiu! (…) Destruída a fortuna, abatido o nome, que mais queriam agora? Meu único crime foi trabalhar muito, tendo sempre por norte – fazer algum bem.

Como um ator dramático, que primeiro solta a voz para ser ouvido por todos e, em seguida, concentra-se numa parte da audiência, Mauá dirige-se a quem mais lhe interessa.

Quanto a vós, credores do Banco Mauá & Cia. acreditai que a dor pungente que me dilacera a alma nasce de ter sido causa involuntária do prejuízo que a liquidação pode acarretar-vos. Minorar este prejuízo é o único pensamento que me preocupa e modera a violência de meu sofrimento moral a possibilidade de vos poder ser útil.

Ficou para trás o negociante. Está em cena o homem de 65 anos, falido e atacado.

Não é um desabafo, é um gemido que esta exposição encerra, e o gemer é privilégio de quem sofre, pretender negar que sofro, e muito, seria faltar à verdade.

Após relatar mais de meio século de transações e iniciativas, Mauá deixa o passado de lado. Fala do futuro e do que supõe ter sido sua marca.

Só me resta fazer votos para que no meio século que se segue encontre o meu país quem se ocupe dos melhoramentos materiais de nossa terra com a mesma fervorosa dedicação e desinteresse (digam o que quiserem os maldizentes) que acompanhou meus atos durante um período não menos longo. (…) E Oxalá que, nas reformas que se apregoam como necessárias ao bem-estar social de nossa pátria, não esqueçam os que se acharem à frente da governação do Estado, que o trabalho e os interesses econômicos do país são, mais que muitos, dignos da proteção e do amparo a que têm direito.

Antes do ponto final, uma frase quase enigmática.

Pela parte que me toca, fui vencido, mas não convencido.

Não havia mais o que dizer. Em vinte dias, longe da família, de seus livros e papéis54 escrevera um documento contundente. Editado em 1878 como um livreto de pouco mais de duzentas páginas destinado a um público muito específico, com o tempo alcançaria uma dimensão histórica ímpar.

Em maio de 1878, sem conseguir prorrogar a moratória, o Banco Mauá fecharia suas portas.