Capítulo Cinco

Uma viagem e tanto

1840 - 1841

Com os papéis e anotações sobre a escrivaninha, Mauá confere o que havia escrito. A fazenda Sapopemba lhe proporciona o sossego que não teria no Rio de Janeiro para recapitular sua trajetória. Arrola as iniciativas realizadas ao longo dos anos, sabendo que não conseguirá arrolar tudo. Concentra-se nas principais.

Sete páginas estão já preenchidas com sua caligrafia e ainda não entrou no assunto central. Queria detalhar uma a uma essas atividades e as causas da quebra de seu banco. Mas antes falará do acontecimento decisivo para moldar sua visão de mundo. Vamos acompanhá-lo.

Visitando pela primeira vez a Inglaterra em 1840, ainda no período de atividade comercial a que me referi, logo em caminho de Falmouth para Londres, tive de afastar-me da estrada mais curta a convite de um companheiro de viagem (o falecido John Morgan) para visitar um grande estabelecimento de fundição de ferro e maquinismos em Bristol, que pertencia à firma de um seu irmão.

A cidade, no Sudoeste da Inglaterra, tinha um porto, era um centro industrial e comercial importante e tornara-se o terceiro maior conglomerado urbano do país.

Era já então, como é hoje ainda, minha opinião que o Brasil precisava de alguma indústria, dessas que podem medrar sem grandes auxílios, para que o mecanismo de sua vida econômica possa funcionar com vantagem; e a indústria que manipula o ferro, sendo a mãe das outras, me parece o alicerce dessa aspiração. Causou-me forte impressão o que vi e observei, e logo aí gerou-se em meu espírito a idéia de fundar em meu país um estabelecimento idêntico; a construção naval fazia também parte do estabelecimento a que me refiro.

Um mundo novo se abria diante do ex-caixeiro, com seus empreendimentos siderúrgicos, têxteis e de carvão, sua malha ferroviária e seu sistema bancário espalhando- se para além de suas fronteiras. Irineu peregrinava
pelo coração da economia mundial, a bombear e a sugar riquezas num fluxo aparentemente ininterrupto. Era uma dinâmica geradora de prosperidade a modernizar as relações de produção, moldando instituições, modos de vida e subordinando nações e povos às suas diretrizes. O historiador Eric Hobsbawm sintetiza a pujança daqueles tempos com as seguintes palavras:
Essa economia utilizava a força de um milhão de cavalos em suas máquinas a vapor, produzia dois milhões de jardas (aproximadamente 1,8 milhão de metros) de tecido de algodão por ano em mais de 17 milhões de fusos mecânicos, e colhia quase 50 milhões de toneladas de carvão e importava e exportava 170 milhões de libras esterlinas em mercadorias em um só ano. Seu comércio era duas vezes superior ao de seu mais próximo competidor, a França. (…) Produzia mais da metade do total dos lingotes de ferro do mundo economicamente
desenvolvido e consumia duas vezes mais por habitante do que o segundo país mais industrializado (Bélgica), três vezes mais do que os eua e quatro vezes mais do que a França. (…) Era de fato, a ‘oficina do mundo’.12

A pátria da Revolução Industrial era uma maravilha para a minoria que controlava suas engrenagens. Do outro lado da moeda, o mundo do trabalho chafurdava na miséria, envolvendo homens, mulheres e crianças em jornadas extenuantes de até 15 horas, em sete dias por semana. O escritor Charles Dickens (1812–1870) assim descreve um lugar inspirado nos centros industriais da Era Vitoriana:
Coketown (…) era uma cidade de tijolo vermelho, ou antes, de tijolo que tinha sido vermelho, se a fumaça e as cinzas o tivessem consentido; mas tal como estava era uma cidade de um vermelho e preto esquisitos, semelhando à cara pintada de um selvagem. Era uma cidade de máquinas e altas chaminés, das quais saíam incessantemente serpentes intermináveis de fumaça, que jamais se desenroscavam. Tinha um canal negro e um rio manchado de roxo por tintas mal cheirosas e imensas pilhas de edifícios, cheias de janelas, onde todo santo dia havia ruídos e estremecimentos e onde os êmbolos das máquinas a vapor subiam e desciam melancolicamente, semelhantes à cabeça de um elefante melancolicamente louco. Para essa gente, cada dia era igual ao anterior e ao seguinte e cada ano idêntico ao último e ao próximo.13

Gerando riqueza e miséria ao mesmo tempo, o capitalismo se impunha de forma irreversível, integrando um número crescente de nações e regiões num comércio e numa rede financeira intercontinental. O centro de tudo estava na Europa Ocidental e mais especificamente na Grã-Bretanha. A marcha do progresso, o surto industrial, a busca por matérias-primas e a abertura de novas fronteiras agrícolas provocava inéditos deslocamentos humanos do campo para a cidade e de um país a outro. Em poucas palavras, a década de 1840 é um tempo em que a economia se expande e as tensões sociais se aguçam e explodem nas revoluções e rebeliões de 1848.

A ideologia que embalava este mundo era o liberalismo. Sua materialização estava no livre-comércio, na supremacia das altas finanças, no padrão-ouro e na construção de uma paz universal que não atrapalhasse os negócios.

Negócios também eram as metas do jovem gaúcho em andanças por aquelas terras de castelos, lendas e fábricas. Após conhecer diversas localidades, Irineu rumou para o norte, na fronteira escocesa. Lá vive seu sócio Ricardo Carruthers, na pequena Carlisle, a 500 quilômetros de Londres, em meio a ruínas romanas e celtas.

Quando o brasileiro chegou, os dois conversaram longamente. Acertaram o estabelecimento de uma representação em Manchester, o núcleo da indústria têxtil inglesa. O velho comerciante o colocou em contato com José Henrique Reydell de Castro, que conhecera na cidade do Porto, em Portugal, onde o irmão de Carruthers, Guilherme, mantinha uma firma de exportação e importação. Os empreendimentos da família
envolviam todo tipo de mercadoria.

A Carruthers and Company negociava com o traficante de escravos português Manoel Pinto da Fonseca, no Rio de Janeiro. Embora o tráfico fosse proibido na Inglaterra desde 1807, comerciantes britânicos ao redor do mundo transacionavam e ganhavam dinheiro direta ou indiretamente com o comércio negreiro. Os Carruthers não foram exceção.14

Os ingleses não haviam abolido o tráfico por razões humanitárias. Perceberam que o trabalho assalariado era mais vantajoso para a industrialização. O capitalista não necessitaria pagar adiantado pela força de trabalho e nem teria de alimentá-la e mantê-la em períodos de entressafra ou crise. Simplesmente a dispensaria. Pagar salários mostrou-se ser muito mais barato do que sustentar um cativo, na maioria dos casos.

O velho comerciante propôs aos estrangeiros a formação de uma nova companhia, que se chamaria Carruthers, de Castro & Cia., com negócios em três países. Irineu estreitava ainda mais seus vínculos com a Inglaterra.

O que pensava aquele brasileiro ainda não chegado aos trinta anos? Seus escritos posteriores apontam para uma boa formação liberal. Alguns biógrafos ressaltam suas possíveis leituras de A riqueza das nações, de Adam Smith (1723–1790), um marco do liberalismo. Publicado em 1776, o livro logo se tornou o principal argumento dos defensores da livre-iniciativa e da redução de toda interferência estatal na economia.

Smith advoga as vantagens do livre-comércio num tempo em que seu país já se consolidava como potência e deixara o protecionismo aos seus produtos para trás. Em uma de suas páginas há uma admirável síntese de suas idéias:
Todo indivíduo empenha-se continuamente em descobrir a aplicação mais vantajosa de todo capital que possui. Com efeito, o que o indivíduo tem em vista é a sua própria vantagem, e não a da sociedade.
Todavia, a procura de sua própria vantagem individual natural, ou antes, quase necessariamente, leva-o a preferir aquela aplicação que acarreta as maiores vantagens para a sociedade. (…)
Geralmente, na verdade, ele não tenciona promover o interesse público, nem sabe até que ponto o está promovendo.

O economista prega as vantagens do individualismo como motor do progresso. Mais adiante, ele argumenta:
Ao preferir dar sustento mais à atividade de seu país do que à exterior, ele tem em vista apenas sua própria segurança; e, ao dirigir essa atividade de maneira que sua produção seja de maior valor possível, ele tem em vista apenas seu próprio ganho e, neste caso, como em muitos outros, ele é guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção. E o fato de este fim não fazer parte de sua intenção nem sempre é o pior para a sociedade. Ao buscar seu próprio interesse, freqüentemente ele promove o da sociedade de maneira mais eficiente do que quando realmente tem a intenção de promovê-lo.15

Acreditando que a mão invisível daria conta de tudo, Smith proclama:
É altamente impertinente e presunçoso, por parte de reis e ministros, pretenderem vigiar a economia das pessoas particulares e limitar seus gastos. (…) São sempre eles, sem exceção alguma, os maiores perdulários da sociedade.16

Ou seja, Smith coloca uma distinção clara entre livreiniciativa e Estado.

É bem possível que Irineu conhecesse estas linhas. José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu (1756–1835), conselheiro de D. João vi, foi o maior divulgador das idéias de Smith no Brasil do início do século xix. Escreveu vários volumes sobre as vantagens da livre-iniciativa com razoável repercussão entre a oligarquia intelectualizada.

No entanto, o liberalismo no Brasil teve uma adaptação um tanto artificial. Primeiro porque todo fazendeiro ou empresário que se dizia liberal dependia de negócios e favores da Corte. Em segundo lugar, lembra a historiadora Emilia Viotti da Costa:
Os principais adeptos do liberalismo foram homens cujos interesses se relacionavam com a economia de exportação e importação. Muitos eram proprietários de grandes extensões de terra e elevado número de escravos e ansiavam por manter as estruturas tradicionais de produção ao mesmo tempo em que se libertavam do jugo de Portugal e das restrições que este impunha ao livre-comércio. As estruturas sociais e econômicas que as elites brasileiras desejavam conservar significavam a sobrevivência de um sistema de clientela e patronagem e de valores que representavam a verdadeira essência do que os liberais europeus pretendiam destruir.17

Nenhum dos valores políticos originais, como valorização do trabalho, apego às instituições representativas e aos direitos da cidadania, entre outros, tinham lugar numa sociedade pautada pelo patrimonialismo e pelos laços de parentesco.

Irineu aprenderia nos anos seguintes a original adaptação que o liberalismo fez no Brasil. Quando voltou ao país, o primeiro investimento do rapaz não teve nada a ver com negócios. Adquirira alguns hábitos britânicos, entre eles o de gostar que o chamassem de “Errnêo”, uma corruptela de seu nome, como pronunciado em inglês. O outro era o dos formalismos. Contava que, se um dia se casasse, o aviso dado seria um anel de ouro.

A vida doméstica de Irineu era dividida com a mãe, a irmã e uma sobrinha de 14 anos, Maria Joaquina. Logo após a chegada, trouxe um pequeno embrulho e o confiou à menina, sem dar muitas explicações.

No jantar do mesmo dia, o tio lhe perguntou se já mostrara às amigas o presente que lhe trouxera, sublinhando esta última expressão. A menina ficou vermelha, mas os demais compreenderam. Em 11 de abril de 1841, casaram-se tio e sobrinha. Teriam, ao longo dos anos, 12 filhos.