Capítulo Quatro

Tempos de agitação

1831 - 1840

Otom seria mesmo esse? Não está prolongando excessivamente a introdução? Talvez fosse melhor falar logo das realizações de sua vida… Não, não. Era incomum alguém como ele se colocar publicamente como agora. É bom evitar o estilo seco e burocrático de um relatório de atividades. Está numa disputa dura. Seus possíveis leitores são comerciantes, fazendeiros, deputados, senadores, cobras criadas, enfim. Poucos amigos. Insiste na vontade que o move. Pousou a pena na folha e a faz deslizar, dando corpo ao que lhe vai pela mente.
Não é nesta hora solene, em que a vítima de um grande e não merecido infortúnio vem dar explicações àqueles que têm o direito de exigi-las, que eu me lembraria de fazer uma narrativa infiel aos fatos com que julgo do meu dever ocupar vossa atenção, quando a verdade, aliás, tem sido o escudo que me tem amparado em todas as vicissitudes de uma longa vida.

A “longa vida” confundia-se com a história do País. Atravessara crises econômicas e agitações políticas. Vivera plenamente seus dias. Assim, o texto deveria ser, ao mesmo tempo, emocional e sóbrio. Não externaria mágoas. Conhecera muitas crises e sabia o viés exato para se dirigir aos credores. A situação geral agora era muito tranqüila, se comparada a do Brasil de sua juventude.

Cerca de um ano depois de começar a trabalhar com Carruthers, Irineu vê o País degringolar entre um governo que se isola, uma crise econômica crescente e o descontentamento que floresce na Corte e nas províncias. O comércio fica às moscas. Fechado o Banco do Brasil e havendo um clima de desconfiança geral no futuro, o diminuto crédito disponível se retrai. As poucas fábricas existentes trabalham aquém de sua capacidade. Fechando o círculo, a arrecadação fiscal cai e não há solvência nas contas do Estado. Raros eram os compradores para os títulos da dívida pública. Os valores dos imóveis e da terra despencam.

A perda de legitimidade de D. Pedro acentua-se nos meses seguintes, reduzindo as margens de manobra de seu governo. Quando o monarca resolve destituir um ministério composto apenas por brasileiros, no início de abril de 1831, surpreende-se com uma mobilização popular diante de si. Insuflando os descontentes estavam setores militares, exigindo a volta dos demitidos. D. Pedro tenta nomear um novo gabinete, mas recua. Percebe que as tropas se voltariam contra ele. É um imperador ilhado.

A temperatura política sobe. Na madrugada de 7 de abril, D. Pedro abdica do trono em favor de seu filho, Pedro de Alcântara, que contava apenas cinco anos de idade. Sequer se despediu do garoto e abandonou o palácio. Uma semana depois, a bordo de uma fragata inglesa, partiu para Portugal.

O vácuo no trono resultou numa situação curiosa. Rapidamente organiza-se um novo governo, em nome do príncipe herdeiro. O ponto de articulação era o parlamento, que ecoava um movimento antiabsolutista existente em alguns setores da sociedade. Com maioria liberal e sem a presença de portugueses, montou-se um colegiado de três membros, chamado Regência Trina. A figura proeminente era o padre Diogo Antônio
Feijó (1784–1843), deputado e posteriormente senador do Império. A Regência tentou conter a crise econômica e debelar revoltas que se espalhavam pelas províncias. Controlou gastos e apertou o fisco. De certa forma, o período regencial foi um embrião de República, por mais que seus membros se comprometessem com a manutenção da monarquia.

Em 1834, após as eleições ocorridas no ano anterior, a Câmara dos Deputados começa a debater um ato adicional, destinado a fazer várias reformas constitucionais. O objetivo era evitar novos conflitos pelo território. Após intensos acertos, resolvem fortalecer os poderes provinciais, por meio da criação de Assembléias Legislativas em cada uma delas.

No entanto, a estrutura centralizada do Estado Imperial permaneceu intocada. Os presidentes provinciais seguiriam sendo nomeados pelo Rio de Janeiro. Sem soluções estruturais, as tensões regionais cresceram, caracterizando o período regencial (1831–1840) como um dos mais conturbados da História brasileira.

Inquietações regionais

Em 1835 eclode a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Era um movimento federalista, a unir estancieiros e setores populares na exigência de maior autonomia, que se prolongaria até 1845.

O Sul do País, quer pela distância, quer por suas características econômicas e sociais, já gozava de certa independência do poder central. No entanto, os estancieiros e produtores acusavam a Corte de não proteger sua economia. O estopim acontecera em 1834. O governo regencial nomeou um novo presidente para a província, que decidiu criar mais impostos. Os estancieiros viram aquilo como uma afronta. Em meio à degringolada econômica geral, a rebelião literalmente se armou ao longo dos anos seguintes.

Em 1838 estava formada a República Riograndense. Meses depois, o movimento alcançava Santa Catarina. Contando com grande legitimidade, os rebeldes enfrentaram tropas governamentais e organizaram uma administração autônoma e federada.

A partir de 1842, após nomear Luís Alves de Lima e Silva, o Barão de Caxias, presidente da Província, o governo central começa a ter sucesso contra os revoltosos. Por meio de ações militares e acordos parciais, que incluíam anistia aos sublevados, a Revolução Farroupilha teve fim.

A segunda grande rebelião do período regencial foi a Cabanagem (1835–1840), na província do Pará. Aqui, a mobilização tinha cunho majoritariamente popular. Em janeiro de 1835, a movimentação chegou a Belém. O presidente da Província, Lobo de Sousa, e outras autoridades foram executadas. Um governo popular foi instalado.

A repressão oficial foi violentíssima. Cerca de 30% da população paraense foi dizimada no conflito.

A Cabanagem não foi um fenômeno isolado. Entre 1838 e 1841, a província do Maranhão foi palco de encarniçadas disputas que ficariam conhecidas como Balaiada. Seus líderes eram todos oriundos das camadas pobres da sociedade. Dos cerca de 200 mil habitantes da região, quase metade era formada por escravos.

Na Bahia, por sua vez, eclodiria a Sabinada, entre 1831 e 1833. E em 1835 ocorre na capital da província a revolta dos escravos malês, de cunho nitidamente popular e anti-racista. A própria Corte viveria também sob o signo da agitação nos quartéis e nas ruas.

Há várias explicações para o fracasso das rebeliões regionais e o sucesso da repressão oficial na segunda metade da década de 1830. A condicionante geral estava na economia. O medo da oligarquia de que as revoltas ganhassem fôlego e desembocassem num movimento mais unido acabou levando a Regência a uma crise. Apesar de reprimir as revoltas com energia, Feijó renuncia em 1837. Havia uma forte articulação regressista e conservadora em curso.

A economia começava a se mover. A contração no orçamento dava resultados. Começava a ganhar corpo um novo produto de exportação, o café, plantado nas províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo. A crise econômica recuava e o Norte e Nordeste do País paulatinamente perdiam peso relativo no contexto nacional. Para o povo não havia muita diferença. O País já tinha uma abissal diferença de renda e os benefícios do ciclo que se iniciava ficavam empoçados nas diminutas camadas ricas da sociedade.

A reativação econômica dera gás aos conservadores. Eles obtiveram maioria no parlamento e articularam uma violenta repressão às rebeliões regionais. Decidiram acabar com restrições existentes ao tráfico de escravos, estabelecidas em 1831 por pressão inglesa, e abriram caminho para um golpe que se tramava à boca pequena: a volta da monarquia.

O irônico é que a medida acabou vindo pelas mãos dos liberais. Valendo-se do temor despertado pelas revoltas entre a oligarquia, a campanha pela redução da maioridade do menino Pedro de Alcântara sensibilizou setores médios da Corte. Em 1840, as elites chegam a um consenso: decretaram o príncipe imperador do Brasil.

¿Tentou-se dourar a pílula, mas o episódio ficou conhecido como o Golpe da Maioridade. Acabara qualquer esboço republicano pelas décadas seguintes.

De empregado a patrão

E Irineu? O moço havia trabalhado duro e subira na empresa, ao mesmo tempo em que seguia as tensões à sua volta, como a maioria dos habitantes da Corte. A cidade fervia em intrigas e boatos. Quem subiu? Quem caiu? Quem foi preso? Ele acompanhava e trabalhava.

Em 1º de janeiro de 1836, com 23 anos, o caixeiro torna-se sócio da firma, agora batizada de Carruthers & Cia., com sede na Rua do Ouvidor, 84. Já falava inglês fluentemente e conhecia os meandros dos negócios de importação e exportação.

A promoção tinha dois motivos, por parte de Carruthers. Primeiro, representava um reconhecimento da competência e da confiança que o rapaz lhe inspirava. E, segundo, como Carruthers desejava voltar à Inglaterra, sem se desligar completamente dos negócios, nada melhor do que alguém com vontade de vencer para dirigir as coisas do lado de cá do oceano.

Próspero e independente, o jovem empresário procurou um teto para morar, no ano seguinte. Encontrou uma boa residência no morro de Santa Teresa. Primeiro a alugou e depois a comprou. Havia alguma excentricidade na escolha do lugar. Era uma região de precária urbanização, com um clima mais ameno que o da cidade, de onde se avistava todo o Rio de Janeiro. Mas o acesso era difícil e o percurso era feito em lombo de burro ou em caras liteiras. Quem morava por lá vinha ao centro duas ou três vezes por semana. Irineu subia e descia todos os dias. A pé.

A casa era um local de reuniões da empresa, longe do cotidiano comercial da cidade. Aos fins de semana, o morador lia avidamente o que lhe caía nas mãos, de literatura a economia, passando por revistas inglesas sobre navegação, metalurgia, ferrovias etc.

Quando alguns rebeldes farrapos foram presos, em 1839, e levados para a fortaleza de Santa Cruz, no Rio, o sócio de Carruthers mobilizou-se para enviar comida aos conterrâneos que passavam maus bocados nos cárceres oficiais. Alguns conseguiram fugir e tiveram, por algum tempo, abrigo na residência de Santa Teresa.

No mesmo ano, Irineu concretiza uma promessa feita dezoito anos antes. Manda buscar, no Sul, a mãe, Mariana, e a irmã, Guilhermina. Esta última era agora viúva e tinha uma filha de 13 anos.11

Tempos depois, o sócio zarparia para sua terra natal. Irineu manifestou hesitação entre aceitar ou não a chefia de uma empresa de porte como aquela. Tinha dúvidas se contaria com a confiança dos empregados ingleses, alguns mais velhos do que ele. Talvez fosse jogo de cena. Ao que consta, não houve maiores problemas. Mesmo à distância, os sócios mantiveram contato constante, seja por carta, seja pelos negócios.

Apesar da juventude, o menino de Arroio Grande era um veterano nos negócios. Sua prosperidade coincidiu com o constante crescimento de uma economia que se articulava de uma nova maneira com o capitalismo internacional. A palavra era pouco empregada na época. Mas, por meio desse sistema, países e regiões de vários continentes foram se integrando pelo comércio e por uma teia de interesses econômicos e financeiros, às vezes pacíficos e às vezes brutais. O centro irradiador deste impulso estava na Europa e mais especificamente na Grã-Bretanha, que começava a exercer suas características imperiais.

Irineu Evangelista de Sousa queria conhecer este mundo e suas engrenagens. Aos 26 anos, em 1840, parte para sua primeira viagem internacional. Vai ao centro de tudo. O destino é a Inglaterra. Quer saber como anda sua sociedade, do lado de lá daquele mar azul da baía de Guanabara.