Capítulo Três

Subindo na vida

1822 - 1833

Mauá detém a pena. No isolamento da fazenda Sapopemba, diante da alvura das folhas sobre a escrivaninha, resolve tocar em apenas um ponto de seus primeiros anos no Rio de Janeiro, cinco décadas antes. Cita um parceiro que o acompanhou por boa parte da vida. Molha a caneta no tinteiro e escreve:
Um dos melhores tipos da humanidade, representado em um negociante inglês que se distinguia pela inteira probidade da velha escola da moralidade positiva, depois de provas suficientes de minha parte em seu serviço, escolheu-me para sócio-gerente de sua casa, quando era eu ainda imberbe, pondo-me assim tão cedo na carreira comercial, em atitude de poder desenvolver os elementos que porventura se aninhavam em meu espírito.

Resolve não citar o nome. Todos saberão tratar-se de Ricardo Carruthers, seu ex-patrão e sócio, que o ajudara a internacionalizar os negócios e a montar seu potentado empresarial. Mas, antes de Carruthers, o jovem Irineu teve alguns anos de balcão.

Dois anos após chegar à Corte, em 1825, o menino conseguiu seu segundo emprego. Foi para a casa comercial do português João Rodrigues Pereira de Almeida, na rua Direita, 155. O novo patrão era um dos maiores comerciantes da praça do Rio de Janeiro, por diversas vezes diretor do Banco do Brasil. Em 1828 seria agraciado pelo imperador com o título de barão de Ubá.

Pereira de Almeida era o que se chamava de negociante de grosso trato. Ou seja, era um atacadista de porte, que realizava tarefas de importação e exportação em grande quantidade, envolvendo muitas pessoas em transações diversificadas. Como todo grande comerciante dos tempos, Pereira de Almeida tinha um pé no mais lucrativo negócio da Corte, o tráfico internacional de escravos.

Sua firma dispunha de uma frota de 13 navios. Era um comércio que necessitava de investimentos vultosos, dominado por cerca de duas dezenas de agentes. Aqui também havia uma particularidade histórica. A partir da abertura dos portos às “nações amigas”, em 1808, o comércio com a Europa era monopolizado pelos ingleses. Aos portugueses e brasileiros restavam principalmente as transações com a África, ou seja, o mercado de escravos.

Além do tráfico atlântico, Pereira de Almeida negociava simultaneamente com as províncias do Rio de Janeiro e do Espírito Santo e com as regiões Sul e Norte. Sua família (os irmãos João, Manuel e Joaquim) chegou a patrocinar 23 expedições marítimas à África entre 1811 e 1830. Marginalmente, atuava como agiota. Embora o Banco do Brasil existisse desde 1808, não havia crédito suficiente na sociedade para financiar o conjunto das atividades privadas. Assim, quem tinha dinheiro para emprestar eram os grandes comerciantes.

Em breve, Irineu se torna o principal caixeiro da firma e funcionário de confiança. Toma conta da chave do cofre, onde são guardadas as receitas do dia.

João Pereira de Almeida ficara muito rico. Sua derrocada, anos depois, só pode ser totalmente explicada pela maré de instabilidades que o País enfrentou.

Império em apuros

A partir da Independência e por quase duas décadas, o Brasil viveu um dos períodos mais conturbados de sua História. São duas ordens de problemas, uma política e outra econômica.

Havia uma permanente tensão envolvendo conservadores, que desejavam uma recolonização do País, especialmente comerciantes portugueses, e outros ansiosos por aprofundar o processo de separação, a elite brasileira. O próprio príncipe D. Pedro personalizava uma ambigüidade política. Embora fosse o soberano do novo país, era filho do monarca metropolitano. Como pano de fundo, havia um quadro de virtual falência nas contas públicas, com graves reflexos na economia.

As disputas se expressaram na Assembléia Constituinte, instalada em maio de 1823, que elaboraria a primeira Carta brasileira. Em novembro, cedendo aos apelos dos setores conservadores, D. Pedro dissolve a Assembléia. Um emaranhado de motivos, tendo como centro questionamentos à autoridade do Imperador, motivaram seu gesto. Mudava-se o estatuto do País, mas as relações políticas e sociais internas permaneceriam como antes. A idéia de D. Pedro era instalar um governo absolutista à moda européia.

Em seguida, o monarca redigiu um novo projeto de Constituição, com apoio dos conservadores. Ela entrou em vigor em 25 de março de 1824, imposta ao País, sem debate algum. A repercussão foi muito negativa. Muitas regiões tinham escolhido representantes que viram sua delegação desrespeitada.

Uma das primeiras conseqüências da situação foi a eclosão de diversas revoltas pelo País. A mais importante delas aconteceu em Pernambuco, a partir de 2 de julho, num movimento republicano conhecido como Confederação do Equador, que aglutinaria outras províncias da região. Uma Constituinte local definiu as linhas gerais de governo e proibiu o tráfico de escravos no porto de Recife.

A reação da Corte não se fez tardar. Tropas governistas, auxiliadas pelo mercenário inglês Thomas Cochrane, invadiram a Capital da Província com extrema violência. Em 29 de novembro de 1824, a Confederação estava dissolvida. Seu principal líder, Frei Caneca, seria fuzilado semanas depois.

Guerra no Sul

No início de 1826, o Império desencadeou novo foco de tensões: uma guerra contra a Argentina pela posse da Província Cisplatina, atual Uruguai. Ao longo de três anos, o conflito tragou a vida de cerca de dez mil brasileiros e mostrou-se um inesgotável sorvedouro de recursos. O enfrentamento impopular levaria o governo a um desgaste de três anos, até a assinatura de um acordo mediado pela Inglaterra. Brasil e Argentina saíram do enfrentamento com vultosas dívidas junto à City londrina.

As províncias tinham pelo menos uma perspectiva comum. Era a tentativa de obter autonomia federativa para que os negociantes locais pudessem comercializar com mais liberdade.

A contradição era séria. As províncias mais populosas eram Pará, Maranhão, Ceará, Pernambuco, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. Suas economias não eram integradas, voltavam-se para a exportação e mantinham relações, na maior parte das vezes, diretas com a Europa. Ao mesmo tempo, eram obrigadas a recolher impostos, centralizados no Rio de Janeiro.

Ao longo dos anos seguintes, a situação econômica não melhorou e as inquietações provinciais continuaram. Nesse meio tempo, vários comerciantes da Corte se opuseram ao monopólio de crédito do Banco do Brasil. A instituição era apontada como responsável pela crise econômica. Criado em 1808 por D. João vi, combinando fundos privados e administração estatal, o banco fora pensado para dotar o País de créditos necessários ao desenvolvimento. Os particulares foram atraídos a investir no banco com promessas de privilégios e favores governamentais. A proposta de fechamento, consumada em 1829, representou um enfraquecimento da autoridade governamental.

O panorama econômico dessa época ainda era baseado nas premissas da economia colonial. As relações não eram plenamente capitalistas, o mercado interno era primitivo e as principais atividades eram de cunho extrativista ou mercantil. O historiador João Luís Fragoso nota que poucos comerciantes conseguiam manter seus negócios por um período superior a dez anos, uma vez que os mercados nacionais eram incipientes e tremendamente instáveis. Tal fato gerava uma multidão de mercadores eventuais.

Nesta conjuntura de instabilidade e crise, João Rodrigues Pereira de Almeida vê seus negócios naufragarem e as dívidas tornarem-se impagáveis. Já não consegue realizar um negócio de alto risco, como o tráfico negreiro. Em 1829, sem saída, chama os credores, oferecendo-lhes seus ativos. Raspa o tacho e entrega até mesmo o prédio em que morava, na rua dos Latoeiros (atual Gonçalves Dias), mais as jóias da esposa.

Um dos credores era um comerciante inglês sisudo chamado Ricardo Carruthers. Vários biógrafos de Mauá relatam sua recusa em receber a moradia do português como parte do pagamento. “Na Inglaterra o home é sagrado”, teria dito.10 Deixou a casa com o empresário falido. Almeida, retribuindo o gesto, respondeu: “Quero pagar-lhe este serviço, doulhe um bom caixeiro”. Pode ter sido mais ou menos assim.

Ricardo Carruthers, natural de Liverpool, chegara ao Rio em 1823 e logo se associou a Pereira de Almeida. Viera de Lisboa, onde deixara o irmão Guilherme à frente dos negócios que lá possuía.

As andanças e transações de Carruthers são exemplo da desenvoltura e facilidades que comerciantes ingleses tinham no império português e em sua ex-colônia tropical. De acordo com pesquisa do historiador Carlos Gabriel Guimarães, ele atuou não só na importação de produtos têxteis da Inglaterra, como também financiou o tráfico negreiro. A partir de 1829, organizou a firma Carruthers & Irmãos.

A entrada de Irineu Evangelista de Sousa numa empresa que atuava nos dois lados do Atlântico deu-lhe, aos 17 anos de idade, uma nova dimensão do que era o mundo dos negócios.

Logo se aventurou pela língua de seu novo patrão. Carruthers ensinou ao caixeiro noções de contabilidade, deulhe uma gramática inglesa e outras obras. Emprestou livros de sua biblioteca. John Milton, William Shakespeare, Stuart Mill eram alguns dos autores lidos. Ao que tudo indica, o rapazola deve ter se maravilhado ao saber da pujança britânica pelo mundo e os feitos do capitalismo em expansão.

Alberto de Faria (1865–1931), um dos primeiros biógrafos de Mauá, conta que, por essa época, ele só contava e praguejava em inglês. O costume chegou a ponto de pedir que o chamassem de Ernêo, uma corruptela anglófona de seu primeiro nome.

Manias à parte, o certo é que já começara a fazer seu pé-de-meia, enquanto o País continuava em ebulição.