Capítulo Quinze

O Mauá Que Fica

1878 - 1889

A falência foi dramática, tanto em termos econômicos gerais, quanto na esfera particular. Quase todos os bens do empresário entraram na conta dos débitos. A lista de propriedades do Visconde envolvia ações de suas numerosas empresas, sua casa no bairro do Catete, vários imóveis nas províncias de Rio de Janeiro, de Rio Grande do Sul e de São Paulo, a fazenda Sapopemba, além de cristais, louças, muitas peças de mobiliário e até roupas, óculos, talheres de prata, jóias etc. Apesar de a lei permitir ao devedor manter objetos pessoais, tudo foi colocado à disposição da Justiça.

Mauá vendeu a residência de São Cristóvão e alugou uma nova casa. Pouco tempo depois, mudou-se para Petrópolis. A grande propriedade que possuía na cidade também fora passada nos cobres. Viveria os últimos anos em um lugar menor do que suas moradias anteriores.

De todo o patrimônio anterior, pouca coisa sobrou. Em suas mãos permaneceu a Companhia Pastoril e Agrícola. A administração da empresa e sua expansão nos anos seguintes lhe garantiram o sustento. Ainda iria várias vezes ao Prata. Mantinha a esperança de ganhar duas demandas judiciais. Eram os processos contra a São Paulo Railway e contra o governo uruguaio.

Sua última viagem à Europa aconteceu em junho de 1884. Em artigo publicado em 8 de junho, no Jornal do Commercio, ele fala de seus objetivos:

Demorar-me-ei pouco tempo em Londres, onde vou promover a cobrança do que for possível arrecadar em benefício dos credores de Mauá & Cia. dos enormíssimos adiantamentos para a construção da E. F. Santos- Jundiaí… Julgo ser cumprimento de um dever ir pedir justiça nos tribunais da velha Inglaterra, visto como os de meu país negaram-se na última instância o direito de serem discutidos judicialmente no Brasil fatos e ocorrências que no Brasil se deram.

Na Inglaterra, nova decepção o aguarda: o caso está prescrito. O prazo para apelações era de cinco anos, de acordo com a legislação local. Não há sequer julgamento do mérito da questão. Os tribunais brasileiros fizeram a causa arrastar-se por dez. Sua fúria fica maior quando se dá conta de que o Barão de Penedo, representante do Brasil em Londres, tomara partido dos ingleses. O ex-caixeiro escreve-lhe furiosas cartas e denuncia o caso em artigos no Jornal do Commercio, em fins de 1884.

Penedo fazia parte da diretoria da São Paulo Railway. O diplomata respondeu aos artigos, lembrando de um apoio dado em 1858, quando intercedeu em favor de Mauá, pedindo a prorrogação de prazo na quitação de uma dívida junto ao banco de seus amigos Rothschild.

O empresário reconhece o trabalho, mas reduz-lhe a importância. Não deixa de reiterar as acusações, em correspondência pessoal. Reclama que a dívida não paga pela empresa inglesa “é a verdadeira causa de minha ruína”. E vai além:
Aprovar (…) com seu voto que eu seja cruelmente roubado, para lançar-me em rosto o prejuízo da Fazenda nacional, é uma dureza de alma que eu não o julgava capaz. (…) O mau infortúnio, sr. Barão, teve origem no roubo mais escandaloso e infamemente urdido de que o século xix fornece exemplo.

Era tarde. Caso recebesse as 600 mil libras que reclamava, sua situação estaria resolvida com os credores. Também não conseguira reaver o que lhe deviam no Uruguai.

O Visconde passava dos setenta anos. Nos últimos tempos, depois de voltar da Inglaterra, quase não ia mais ao Rio. Apesar de tudo, sua situação pessoal melhorara. Até 1884, de uma dívida total de 98 mil contos, 94,7% foram pagos. Mesmo a possibilidade de atuar como comerciante, cuja licença lhe fora cassada durante a falência, fora reconquistada no Tribunal do Comércio do Rio de Janeiro, no início daquele ano.

O peso internacional de Mauá, no auge de suas atividades, pode ser atestado, entre outras coisas, pela referência a ele feita por Julio Verne, em seu romance Da terra à lua, publicado originalmente em 1865. No capítulo 12, os personagens interessados em viabilizar a viagem ao satélite natural da Terra lançam um manifesto, traduzido em várias línguas, destinado a angariar fundos para a expedição. Centralizados no banco de Baltimore, os recursos poderiam ser depositados nas principais instituições de 21 países. Entre outros, Verne menciona que, no Rio de Janeiro, em Montevidéu e em Buenos Aires, os interessados deveriam dirigir-se ao Banco Mauá.

Isso mudara. Em Petrópolis, o empresário via o mundo se transformar à sua volta. Perdera estatura econômica e influência política. A diabete o enfraquecia paulatinamente. Morreu quase esquecido, aos 75 anos, em 21 de outubro de 1889, 25 dias antes da queda do Império, de quem era partidário convicto.

O corpo fez o trajeto da antiga ferrovia, passando pelo porto Mauá, até chegar ao porto do Rio de Janeiro, em barca especial. No cortejo, poucos amigos, a esposa, a quem chamava de May, filhos e netos. Foi enterrado no jazigo da família, no cemitério da Ordem Terceira dos Meninos de São Francisco de Paula.

A Revista Illustrada, de 02 de dezembro de 1889, publica a seguinte nota, sem assinatura, sobre o falecido:
Infeliz por ter vivido em uma época muito atrasada, quando nosso país era ainda uma espécie de Costa d’África e seu melhor negócio o de escravos, o Visconde de Mauá viu por vezes os seus rasgos de gênio serem tomados como utopias pueris, formando-se-lhe, pelo atraso dos espíritos, um vácuo ao redor! A índole potente, o espírito empreendedor e fecundo, a alma generosa e ardente, o coração ávido de glórias, viu suas melhores armas quebradas nas mãos pelo gênio da intriga e pela mesquinharia de homens que só comprendiam que se podia enriquecer comprando e vendendo negros. (…)
Depois de devassar um mundo e de conquistar uma brilhante posição, viu os seus principais esteios vergarem e partirem-se, arrastando na queda o edifício majestoso que seu gênio criara.
Lutou de pé até morrer.
Um galardão, porém, lhe sobrevive: seu nome ficará na história pátria como o do primeiro brasileiro que sonhou todas as grandezas do nosso futuro.
Isso lhe basta.

As causas da falência de Mauá são objeto de controvérsia até hoje. Alguns atribuem sua derrocada a um possível enfrentamento com o capital inglês. Outros vêem a supremacia do Estado sobre a atividade individual como causa principal da quebra. As duas avaliações, embora tenham fundos de verdade, passam ao largo dos motivos principais. Nem Mauá se opôs à entrada de capital externo nem buscou se distanciar do Estado.

Mais prudente é verificar que o mundo em que Mauá prosperara mudou a partir de 1870. Deixa de haver lugar para ele.

Irineu Evangelista de Sousa, mais do que qualquer outro empresário, encarnou a sociedade do segundo reinado. Teve evidentes qualidades como homem de negócios, industrial e banqueiro, num ambiente de transição econômica, quando as relações capitalistas se consolidavam no País. Ligou-se profundamente aos meios políticos e econômicos do Império, soube colocá-los largamente a seu serviço e foi, também, por eles utilizado. Envolveu-se na maioria das questões relevantes do País entre os anos 1850 e 1870. Num país com escasso mercado interno, Mauá buscou dinheiro onde havia: em negócios ligados ao Estado e em associações com o capital inglês.

Esses são os alicerces de Mauá em sua carreira empresarial. Investiu, na maior parte das vezes, onde existiam sólidas garantias por parte do Estado, não lhe faltando, porém, ousadia para alargar esses limites. Sua habilidade e agilidade ímpar, na articulação de relações e em perceber as carências e lacunas a serem supridas no Brasil, é que fazem dele um personagem de destaque.

A Ponta de Areia não existiria sem encomendas estatais, assim como a canalização do rio Maracanã, a iluminação pública e as demandas por navios e armas durante a Guerra do Paraguai. Em muitos dos negócios, como na navegação do Amazonas, Mauá desfrutou de monopólio por longo tempo. Seu banco não prosperaria sem a política brasileira no Prata. No Uruguai, atuou como ponta-de-lança da diplomacia oficial. Teve benefícios e perdas com sua atuação. No plano interno, manteve laços com as principais figuras da corte imperial, independentemente de suas filiações partidárias.

Apesar das relações difíceis com D. Pedro ii, o Visconde seguiu os passos da economia e da diplomacia imperial. As coincidências são claras. Quando ocorre o golpe da maioridade, em 1840, ele está iniciando a fase mais consistente de sua vida empresarial, com a primeira viagem à Inglaterra. Após a Guerra do Paraguai, época em que o Estado imperial entra em crise, os negócios de Mauá também apresentam os primeiros sinais de decadência. Por essa época, a supremacia da Inglaterra no mundo se consolida e os investimentos diretos do capital externo no sistema financeiro e nas obras de infra-estrutura se aprofundam, dispensando intermediações.

Irineu Evangelista de Sousa foi um homem de seu tempo, dotado de audácia, habilidade e visão únicas. Sua capacidade para coordenar diversas iniciativas concomitantes e complexas ficam como um prelúdio de uma economia industrial complexa, que só teria lugar no Brasil a partir de 1930.

Um tempo que reconheceria a essência do que foi o Visconde de Mauá: um empreendedor que olhava para o futuro.