Capítulo Oito

O Estado e os Negócios

1852 - 1854

O Mauá que escreve suas realizações na escrivaninha do escritório da fazenda Sapopemba é um homem amargurado. Havia outros empresários no Brasil, outros industriais, banqueiros e comerciantes. Mas nenhum como ele atuara em tantas frentes, ao mesmo tempo, com tanta competência e agilidade, percebendo onde havia dinheiro e como multiplicá-lo. As palavras que brotam de sua pena exibem uma angústia que beira a impotência.

Desgraçadamente entre nós entende-se que os empresários devem perder para que o negócio seja bom para o Estado, quando é justamente o contrário que melhor consulta os interesses do País. Basta dizer que o resultado favorável anima a criação de outras empresas.

Nesses dias de velhice, em que tenta recuperar seu nome, Mauá generaliza seus ataques. Sabe ter sido vítima de grossa intriga palaciana, aliada a polpudos interesses externos. Conhecia o jogo e dele participara. Mais adiante, solta um extenso parágrafo que parece negar o que escrevera acima. Talvez, naqueles dias fora da Corte, mesmo ele, um homem calejado pelos negócios, não consiga detectar bem a causa de seus infortúnios. Algo, aliás, motivo de controvérsias por mais de um século. Acompanhemos.

Desde que o estabelecimento da Ponta de Areia ficou montado para produzir em grande escala, havia eu aproximado dos homens de governo do país em demanda de trabalho para o estabelecimento industrial, cônscio de que essa proteção era devida, mormente precisando o Estado dos serviços que eram solicitados, em concorrência com encomendas que da Europa tinham de ser enviadas, e já foi dito quanto o estabelecimento prosperou no período em que essa proteção lhe foi dada. As relações adquiridas então se puseram em contato com quase todos os homens eminentes; de quase todos mereci atenções, e de alguns fui amigo sincero, merecendo-lhes igual afeto. Em 1851 compunha-se o ministério em sua totalidade de homens de Estado que me tinham no mais alto apreço.

O Rio de Janeiro em 1850 tinha 180 mil habitantes e era uma cidade sem grandes melhoramentos urbanos. Apenas as ruas mais centrais tinham calçamento. O sistema de limpeza pública era irregular e o maior adensamento populacional comprimia-se entre a rua Direita e o campo de Santana. Ali estava localizada toda a burocracia da corte, as principais casas de comércio, os teatros, as escolas etc.25 À noite, apenas esse trecho contava com cerca de 400 lampiões de azeite de peixe, que geravam uma luz fraca e esmaecida. A cidade era escura e acanhada nessas horas.

Desde pelo menos 1828 existia um projeto para mudar o sistema de iluminação da cidade, quando uma primeira concessão fora outorgada, sem que o serviço fosse realizado.

Embalado pela prosperidade da Ponta de Areia, Irineu, a essa altura o homem mais rico do país, percebeu um bom negócio no horizonte. Poderia fabricar os postes e fazer a canalização necessária destinada a mudar o padrão de iluminação.

Procurou “um dos ministros que fazia estudo havia meses sobre a questão da iluminação a gás na capital”, segundo suas palavras. É bem provável que esse ministro fosse seu amigo José da Costa Carvalho (1796–1860), Visconde de Monte Alegre. Irineu decidiu entrar em uma concorrência e garantiu oferecer o serviço nas ruas centrais da Corte a um preço bem menor que os 31 réis por hora, estipulados pela administração pública. Cobraria 27 réis a hora por um contrato de 25 anos. Um negócio muito vantajoso, calculou ele. O ministro da Justiça, Eusébio de Queiroz (1812–1868), responsável pela área, concordou com as condições e firmou um contrato em 11 de março de 1851.

O serviço de gás foi inaugurado com pompa e festa três anos depois, em 25 de março de 1854. O Jornal do Commercio assim noticiou:
Em verdade, o contraste que apresentavam os antigos candeeiros de azeite ao lado dos brilhantes lampiões de gás tornava ainda mais notável a diferença de luz.26

Ainda em 1854, o sócio de Carruthers obtém outra concessão exclusiva por 30 anos e funda a Companhia de Navegação a Vapor do Amazonas, com barcos produzidos em seu estaleiro.

O Estado não faltou a Irineu nessa fase de suas atividades, através de dois vultosos empréstimos e das concessões de serviços públicos que obteve. Mas, onze anos depois de iniciar o serviço e de obter bons lucros, o empresário vendeu a concessão a capitais ingleses, que fundaram a Rio de Janeiro Gas Company Ltda. Ele amealhou na transação o triplo do valor original de 1,2 mil contos de réis.

A economia do período imperial, centrada no dinamismo do setor primário exportador, subordinava todo o país à demanda dos países ricos. Os negócios só poderiam prosperar à sombra de quem tinha dinheiro para investir: o Estado e o capital externo. Era ali que Irineu Evangelista de Sousa buscava dinheiro.