Capítulo Dois

Ganhando a vida na corte

1821 - 1822

Mauá é um negociante de mão cheia. Sabe o que mostrar e o que ocultar. Diante da escrivaninha, na fazenda Sapopemba, resolve não perder tempo contando aventuras familiares. Precisa ser convincente para se reabilitar na quadra mais difícil de sua vida. É um homem falido. Os credores querem dinheiro e não belas histórias. Resolve, antes de relatar sua trajetória, assumir algumas responsabilidades:
Não preciso dizer-vos que errei e errei grosseiramente a vós, credores do Banco Mauá & Cia., que suportais comigo as conseqüências do erro que cometi optando por uma nova vida de atividade sem exemplo em nossa terra e mui rara em outros países, onde outros elementos auxiliam os esforços da iniciativa individual vigorosa para alcançar altos propósitos em bem dos interesses gerais, que eu afianço ter sido o pensamento dominante que atuou em meu ânimo, rodando todas as outras considerações, muito abaixo desse nível.

Relê o trecho e acha-o convincente. Sabe argumentar. Esta é uma das habilidades que adquirira ainda criança, atrás de um balcão, logo depois de chegar ao Rio de Janeiro. Em 1823, ano seguinte à Independência, aquele era o mais importante porto comercial da América do Sul.

Como qualquer um, ele deve ter se espantado quando viu a cidade pela primeira vez, do convés do barco do tio. A escritora inglesa Maria Graham (1785–1842), que por ali morou na mesma época, contou suas impressões sobre a chegada, em dezembro de 1821:
Nada do que vi agora é comparável em beleza à baía. (…) Altas montanhas, rochedos como colunas superpostas, florestas luxuriantes, ilhas de flores brilhantes, margens de verdura, tudo misturado com construções brancas, cada pequena eminência coroada com sua igreja ou fortaleza, navios ancorados, ou em movimento e inúmeros barcos movimentando-se em um tão delicioso clima. Tudo isso se reúne para tornar o Rio de Janeiro a cena mais encantadora que a imaginação pode conceber.4

Vista de perto, a cidade não parecia tão encantadora. Outro visitante, o pintor alemão Johan Moritz Rugendas (1802–1858), autor de Viagem pitoresca através do Brasil, externa palavras menos entusiasmadas:
O Rio de Janeiro é inteiramente desprovido de edifícios realmente belos. Entretanto, alguns há que impressionam pelo tamanho e pela posição. Assim, por exemplo, a Catedral da Candelária, a Igreja de São Francisco e inúmeros conventos construídos em sua maioria nas colinas que se erguem dentro da própria cidade. Citaremos São Bento, Santo Antonio, Santa Teresa e o castelo de São Sebastião, além de outros edifícios públicos, como, por exemplo, os da Academia e do Museu, da Prefeitura da Praça Santana. O palácio Imperial é um edifício vasto e irregular da pior arquitetura; o do Arcebispo é de melhor gosto. Na parte antiga da cidade, as ruas são estreitas mas regulares; cortam-se em ângulos retos e quase todas são calçadas e providas de passeios. Têm sempre três ou quatro andares e somente três janelas nas fachadas. (…) Nos bairros mais feios, na costa setentrional, na vizinhança do Saco do Alferes, e finalmente nos arrabaldes de Mata Porcos e Catumbi, as ruas são bastante irregulares e sujas. As residências não passam em geral de miseráveis choupanas, esparsas ao acaso ou empilhadas umas contra as outras, entre as colinas e o mar.

Irineu não tinha muito tempo para tais contemplações. Era um menino sisudo, pouco disponível para a vida solta e brincalhona de outros de sua idade. Vinha a trabalho. Empregou-se em uma pequena loja, da qual não há maiores referências, em troca de comida. Para obter algum trocado, engraxava as botas de funcionários mais velhos.5; Era uma escravidão disfarçada. Mal completara onze anos e ele já estava atrás do balcão, das sete da manhã às dez da noite. Dormia em algum canto do próprio estabelecimento.

Segundo o recenseamento de 1821, havia na Corte 112,6 mil habitantes, sendo 79 mil na cidade e 33,6 mil na área rural. Cerca de um terço eram escravos. Naquela cidade e naquela sociedade, de maneira geral, os portugueses tocavam o pequeno comércio, os ingleses, os negócios maiores de importação e exportação e os brasileiros de origem abastada ficavam com as carreiras liberais – política, advocacia e jornalismo. Nas costas dos negros se sustentava o trabalho duro da lavoura. Brancos pobres, de ocupação incerta, e escravos de ganho dividiam as ruas. E havia, por cima de tudo, as camadas burocráticas da aristocracia portuguesa, do clero e da oficialidade militar. O trabalho no comércio só era procurado por rapazes pobres, em geral analfabetos.

Em uma sociedade alicerçada no trabalho servil, as relações sociais eram brutais. O arquiteto Adolfo Morales de los Rios Filho (1887–1973) realizou uma exaustiva pesquisa sobre o período, que resultou no livro O Rio de Janeiro Imperial, publicado em 1946. Ali, é descrito o cotidiano comercial da cidade:
Durante o Brasil colonial e parte do Brasil imperial, inexistiu o ensino técnico, pois a maior parte daqueles que se dedicavam ao comércio fazia seu aprendizado de maneira empírica. O que naquela época se convencionou denominar de prática comercial outra coisa não era senão o automatismo mais completo. Os empregados, fossem nacionais ou estrangeiros, tinham de obedecer cegamente ao que os patrões lhes ordenavam, mesmo sem saberem, a maior parte das vezes, da razão das coisas que lhes incumbiam. E não o fizessem que um bom empurrão ou uma vibrante bofetada os havia de chamar à realidade. Houve até um célebre retalhista do Mercado que manejava, por trás do balcão, umas temíveis esporas! (…) O patrão não era somente chefe do estabelecimento mas, também, dono ou senhor de seus empregados – dos vassourinhas incipientes, sobretudo – dos quais dispunha como maquinismos enfeixados sob o seu guante. Assim, os jovens caixeiros, acorrentados à necessidade do emprego, eram verdadeiros servos, vivendo quase conventualmente reclusos, em verdadeiros cenóbios, nas casas patronais. (…) Quando muito, podiam ficar às portas térreas que comunicavam com os sobrados onde habitavam, olhando com inveja para aqueles, mais felizes que eles, que se dirigiam para os teatros ou para outros lugares de divertimentos públicos6

O dia-a-dia do pequeno Irineu não deve ter sido muito diferente. Sua filha Irene, décadas depois, contaria que um dos fregueses daquele patrão acabou se interessando pelo menino – depois do expediente, ensinava-lhe rudimentos de contabilidade, de francês e de outras matérias.7

Com o pouco que conseguia, mandava algum para dona Mariana, no Sul. Os livros que ganhava eram guardados embaixo do balcão e folheados aos pedaços, quando o movimento comercial era menor. Como aprendeu a ler, não se sabe. Possivelmente a mãe ensinara-lhe as primeiras letras.

Em 1822 estavam espalhadas pela cidade 1.619 casas de negócio. Nesse número se incluíam 1.032 tavernas! Os demais estabelecimentos compreendiam principalmente armazéns de comestíveis, vendas de carne-seca, depósitos de café, molhados, queijos, toucinho, fumo, massame, louça, objetos de metal, cordoalha, materiais de construção.8

Um novo país

A Corte vivia então os primeiros tempos como sede de um país independente. Tudo era novidade. Ao contrário da América espanhola, em que os processos de separação da metrópole se fizeram por meio de encarniçadas guerras e batalhas, a soberania política do Brasil resultou de um complexo encadeamento de negociações, envolvendo Portugal e Inglaterra. O primeiro era a ex-metrópole e a segunda era a potência em ascensão.

A fuga da família real para os trópicos, em 1808, foi causada pela invasão francesa na península ibérica. A ação integrava as guerras napoleônicas (1805–1815), um conjunto de conflitos motivado por uma ação expansionista, que colocou quase todos os países europeus em conflito com Napoleão Bonaparte (1769–1821).

A viagem e a assistência logística à nobreza lusitana contara com o inestimável apoio do principal inimigo da França, a Inglaterra. Dona da maior armada do planeta, berço da Revolução Industrial e sede das mais importantes casas bancárias da época, o império inglês não parava de estender seus domínios internacionais. Londres era uma espécie de capital financeira do mundo. As invasões abalaram os elos entre as metrópoles ibéricas e suas colônias americanas.

A corte portuguesa, a partir daí, se torna um instrumento nas mãos da Inglaterra. Não é de se estranhar que um dos primeiros atos de D. João vi, o monarca português, ao chegar ao Brasil, tenha sido abrir os portos às “nações amigas”.

Em linguagem clara, as mercadorias inglesas teriam taxas aduaneiras menores para entrar no Brasil. Em 1810, um novo tratado estabelece que a Inglaterra pagará apenas 15% de tarifas, ou seja, 9% a menos que as cobradas de outros países. Eram também 1% menores que as cobradas de Portugal. Enquanto essa tarifa perdurou, a concorrência predatória de produtos estrangeiros manufaturados inibiu a industrialização brasileira. Isso significou o fim do monopólio comercial definido pelos portugueses até então. O país se inseriu de uma maneira inteiramente nova no mercado internacional.

Não bastasse tudo isso, a vinda da família real e numerosa comitiva, devidamente escoltada por navios britânicos, resultou numa inversão da ordem dominante. A súbita transformação da colônia em metrópole acabou por desencadear uma série de eventos que tornou inevitável a independência do Brasil.

O Rio de Janeiro seria não apenas o centro administrativo e financeiro do império português – que ainda detinha territórios na Europa, na África e na Ásia –, mas se tornaria uma referência política continental. A partir de 1808, o Brasil teria um banco oficial, as atividades industriais e de imprensa acabariam liberadas, seriam criadas uma academia militar, duas faculdades de medicina e a Corte ganharia vários melhoramentos urbanos. Mesmo no âmbito da máquina administrativa, a incipiente burocracia colonial dá lugar a repartições
administrativas mais complexas e autônomas, apesar de oriundas de uma potência decadente como Portugal.

A inversão das posições entre colônia e metrópole era tão inusitada que, mesmo após a expulsão das tropas napoleônicas de Portugal, em 1812, o monarca português, D. João vi, decidiu fixar residência nos trópicos. Só voltaria à terra natal nove anos depois, por receio de perder o poder, em meio a intensas disputas que lá ocorriam. Aqui ficaria seu filho, o príncipe D. Pedro, que seguiria com a Coroa.

Quando a independência tornou-se um fato, Portugal, de início, recusou-se a reconhecer a soberania do novo país. Não por acaso, a Inglaterra apressou-se em fazê-lo e estabelecer contatos estreitos com o Império do Brasil.

Para obter o reconhecimento da ex-metrópole, D. Pedro comprometeu-se a assumir o empréstimo de 1,4 milhões de libras “que Portugal emitira em Londres em 1823, assim cocomo pagar ao seu real pai 600 mil libras pelas propriedades que deixou no Brasil. (…) Mas, antes da partida de D. João vi, a extravagância de sua corte e os milhares de dependentes que trouxera de Portugal quase levaram o Brasil à falência”. Empréstimos estrangeiros eram, portanto, vitais para a sobrevivência nacional, segundo conta o estudioso inglês Frank Griffith Dawson.9

Para fazer frente a essa situação, o Brasil obteve em Londres, em 1824, seu primeiro empréstimo externo, no valor de três milhões de libras. No ano seguinte, houve um novo financiamento de 3,7 milhões de libras esterlinas. Em 1829, o País contraiu mais quatro milhões de libras. Foi o início de uma sucessão de empréstimos contraídos pelo Império, que se prolongariam República adentro.

Os ingleses gozavam de amplos favores na ex-colônia. Em 1828 seria restabelecido o primado da justiça britânica legislar sobre pendências de negociantes ingleses no Brasil. O dispositivo funcionara entre 1810 e 1818 e voltaria à cena ao mesmo tempo em que crescia o poderio internacional inglês. Era a ascensão do liberalismo, do mercado desregulado e da Inglaterra como principal potência mundial.

O Brasil tornou-se soberano politicamente numa onda de rompimentos das colônias ibéricas com suas metrópoles no período entre 1810, ano da independência da Argentina, e 1828, data da decretação da soberania uruguaia. Em 18 anos, modificou-se um panorama continental que durava já há três séculos. Não foi um processo único, pois contou com inúmeras características locais.

À Inglaterra interessava expandir seus mercados de produtos industrializados e de crédito e aumentar seu leque de fornecedores de matérias-primas. Para isso, Londres apoiou não apenas política e economicamente os países em fase de libertação, como em alguns casos deu suporte militar. Isso aconteceu no Chile, na Venezuela e no Brasil.

A Inglaterra concretizou sua ascendência sobre os jovens estados latino-americanos por meio de vultosos empréstimos concedidos aos Estados para viabilizarem suas independências e um processo de construção nacional.

Tudo isso teria enorme influência no futuro de um garoto vindo dos pampas.