Capítulo Treze

Enfrentando a Tempestade

1864 - 1870

Na mesa, as folhas manuscritas já formam um alentado maço de papel. São mais de 130 páginas manuscritas que se sucedem numa listagem aparentemente infindável de iniciativas, negócios, acordos e breves comentários sobre os poderosos da época, quer no Brasil, quer no exterior. Quando a narrativa parece chegar a uma conclusão, o autor avisa:
Rompendo a ordem cronológica dos fatos em que tive de intervir em [questões] que interessaram à vida econômica e financeira do meu país, deixei para minhas últimas apreciações os que dizem respeito à instituição de crédito que vou ocupar-me.

Quem lê a Exposição aos credores fica com a sensação de que toda a narrativa anterior é um longo preâmbulo para o que realmente interessa. Pelas setenta páginas seguintes, o velho empresário discorrerá sobre os infortúnios de sua mais ousada iniciativa, o Banco Mauá & Cia. Aos poucos, voltam a aparecer novos episódios dos problemas com a Santos-Jundiaí e com o governo uruguaio.

Mauá atropela vírgulas e pontos em suas linhas, maltratando por vezes a sintaxe. Seu biógrafo Alberto de Faria conta que ele “falava e escrevia, às vezes, com uma construção inglesada; os verbos (…) antepunha-os freqüentemente ao sujeito. (…) Eram as reminiscências de uma iniciação literária que a família não lhe proporcionou”.49 Apesar disso, a prosa é direta.

Mauá exalta “o mecanismo do crédito” como “o mais poderoso instrumento da civilização moderna, no tocante à criação de riqueza em toda a extensão do território pátrio”. Segundo ele, o crédito “levaria vida ao capital inerte que superabunda em todos os cantos do Brasil”.

Eu consegui elevar a Casa Mauá à altura de um verdadeiro monumento nacional. Muitíssimo mais teria conseguido se o poder público, que tem o dever de amparar e proteger os interesses legítimos, me não viesse desnortear, desde o começo.

Aos infortúnios na casa bancária, somam-se imprevistos em outros negócios, como na Santos-Jundiaí. Os trabalhos na ferrovia enroscam em um emaranhado de acidentes e desabamentos, em meio a fortes chuvas, quebrando prazos e tornando o projeto uma sangria de recursos. Em fins de 1864 e início de 1865, as obras pararam por meses. Os empreiteiros do trecho próximo a Cubatão, os ingleses Robert Sharp e Filhos, ficaram arruinados. Com o tempo, Mauá percebeu uma virtual sabotagem por parte de seus sócios britânicos. Não cumpriam o compromisso de arcar com parte das despesas, que acabaram cobertas por ele mesmo. Nos anos que se seguem, os Rothschild alegam uma série de pagamentos devidos, o que drena volumosos recursos para a banca inglesa.

No auge da empreitada, cerca de cinco mil trabalhadores assalariados acotovelavam-se pelos canteiros. Enquanto as marchas e contramarchas das negociações empacaram o serviço, o governo de São Paulo decidiu iniciar outra obra. Uma estrada de rodagem, calçada com macadame iria seguir trajeto paralelo ao da via férrea. O aumento da demanda de braços acarreta uma elevação dos salários de 600 para 800 réis ao dia, por pessoa. Mauá arcou com uma elevação de despesas da ordem de dois mil contos. Apesar de solicitar à administração provincial a interrupção das obras da segunda via, o pedido não foi atendido. Depois de pronta, a estrada de ferro deixou a de rodagem esvaziada. Mas os problemas na ferrovia estavam apenas no começo.

Em Londres, desde 1864, percebendo que a crise poderia se aprofundar em suas empresas, Mauá decide tomar medidas preventivas contra futuros prejuízos. Resolve liquidar a firma Carruthers, de Castro & Cia. em Manchester e suspender a abertura do Banco Mauá & Cia. em Paris. Em seguida, propõe uma sociedade com o London and Brazilian Bank. A fusão envolveria o Banco Mauá, MacGregor & Cia., no Rio de Janeiro, o Banco Mauá & Cia. de Montevidéu, de São Pedro do Rio Grande do Sul e de outras filiais. Iriam na lista o banco inglês em Londres e suas filiais no Brasil e em Portugal. Daí resultaria o estabelecimento britânico The London, Brazilian and Mauá Bank Limited. O negócio, no entanto, não prospera. Os ingleses ficam temerosos com as instabilidades brasileiras e manifestam dúvidas quanto à solidez dos negócios do empresário. Havia também problemas do banco na própria Inglaterra.

Temeroso de levar um calote no Uruguai, Mauá comunica ao governo Aguirre, em 1865, a conversão de parte da dívida interna em libras esterlinas. Os credores deixam de ser nacionais e passam a ser investidores da City londrina. O poder de pressão sobre o pequeno Estado é irresistível.

Outra medida preventiva é liquidar sua sociedade bancária, em dezembro de 1866, e organizar uma nova iniciativa, o Banco Mauá & Cia., no qual concentra todos os seus recursos, inclusive bens pessoais. Apesar de tudo, ele se vangloria:
A casa, que representava em 31 de dezembro de 1867 um verdadeiro monumento de crédito, com ativos de 105.186:879$206, era ainda, depois dos dois choques, um estabelecimento bancário de primeira ordem na América do Sul.

Na região platina, a situação política se deteriora. O Paraguai aprisionara um vapor brasileiro no porto de Assunção, em 11 de novembro de 1864. No dia seguinte, o Brasil rompe relações com o país e a 13 de dezembro a guerra é declarada. À distância, Mauá não toma parte nas decisões, mas lamenta os acontecimentos.

Quando volta ao Brasil, Irineu percebe que a situação uruguaia caminha para o fundo do poço, diante de uma aguda especulação com títulos bancários. Em junho de 1866, o governo Flores decreta a conversão forçada desses papéis por seu valor correspondente em ouro. A medida atinge, em especial, fazendeiros e comerciantes. Os bancos ficam dispensados da medida por seis meses. Após várias pressões sobre a administração pública, o prazo é prorrogado.

Vanâncio Flores é assassinado em fevereiro de 1868. A guerra e as seguidas reviravoltas internas desorganizam a produção, empobrecem a população e causam uma acentuada queda nos preços dos produtos exportáveis. O que podia ser comercializado no exterior estava retido no porto de Montevidéu, por falta de transporte. Como se não bastasse, uma epidemia de cólera alastra-se pelos campos e povoados. O país suspende os pagamentos da dívida e limita o poder de emissão dos estabelecimentos financeiros.

Quando o prazo da conversão de títulos se esgota, em março de 1868, já sob o governo do general Lorenzo Cristóbal Manuel Batlle (1810–1877), os bancos Mauá e Montevideano não abrem e pressionam o governo por mais um prolongamento do prazo de dispensa. Correntistas provocam uma verdadeira rebelião contra as casas financeiras.

O Barão vai a Montevidéu na tentativa de resolver a situação e percebe a fúria popular. Ouve, impávido, ao lado da esposa, dentro de seu banco, gritos de “Abajo Mauá!”.

Os sete bancos existentes no país fecham as portas, incluindo o maior deles, o de Mauá, que entra em liquidação em fevereiro de 1869. A quebra no Uruguai acaba sendo uma das principais causas da falência do empresário.50 Um protesto diplomático feito pela legação brasileira no país surte efeito quase zero.

Várias tentativas de acordo são tentadas nos anos seguintes, para que Irineu receba o que lhe é devido pelo Estado uruguaio. As dificuldades se acumulam. Mesmo um entendimento, acertado em 1874, é definitivamente rescindido por um governo hostil a Mauá.

Na vizinhança, o país de Solano López trava uma luta desigual, assimétrica e desesperada contra a Tríplice Aliança. Por quase três anos – até 1868 – a fortaleza de Humaitá, no Sul do país, fecha o rio Paraguai com sua artilharia. Mas torna- se quase impossível resistir, sem armamentos, suprimentos e com um exército famélico e doente. No ano seguinte, cai Assunção e López é morto em março de 1870.

A Guerra do Paraguai foi o maior conflito internacional da história da América Latina. Envolveu quatro países – Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai –, destruiu o último, afirmou nacionalidades, limites e relações entre os envolvidos. Ceifou milhares de vidas, representou tragédias para muitos e vantagens para poucos. A potência regional era o Brasil; a Argentina buscava completar seu processo de unificação e o Uruguai tentava manter sua independência em relação ao Brasil. E o Paraguai viveria uma tragédia por várias gerações.

Praticamente todos os navios brasileiros envolvidos no conflito saíram dos estaleiros da Ponta de Areia. As empresas do Barão de Mauá fornecem ainda uniformes e armamentos para o exército brasileiro, na fase final dos enfrentamentos.

A Guerra consolidou a supremacia brasileira no Prata, mas arrasou as finanças do tesouro imperial. A dívida com a Inglaterra – na verdade com o Banco de N. M. Rothschild – expandira-se assustadoramente. No fim do conflito, as contas nacionais exibiam seguidos déficits, que se tornariam crônicos e subordinariam ainda mais o país aos desígnios dos financistas ingleses. Paradoxalmente, apesar de consolidar o grande projeto do Império, a unidade territorial, a Guerra marcou o início da decadência irreversível do regime monárquico. O país, que entrara no conflito num quadro de crise econômica, saiu dele em piores condições.

Foi um preço altíssimo para se obter a livre navegação dos rios Paraná e Paraguai.