Capítulo Sete

Águas da Discórdia

1850 - 1852

A medida que o texto de sua Exposição aos credores avança, o Visconde de Mauá vai montando uma narrativa cronológica muito clara, como se fizesse um relatório contábil. A dada altura conta, como se fosse apenas mais uma iniciativa entre tantas, sua investida ao sul do continente em conjunto com a diplomacia brasileira.

Desde o começo de 1850 acompanhei todas as evoluções da política do Brasil no Rio da Prata, pela confiança que me honraram os srs. Ministros. Em meados desse ano, declarou-me o sr. Conselheiro Paulino José Soares de Souza, depois Visconde de Uruguai, que, posto a atitude da legação argentina se tornasse cada dia mais pronunciada, o Brasil não estava preparado para aceitar a luva, e cumpria ao governo reunir, sem fazer barulho, os elementos precisos para dar o golpe, a fim de não nos vermos empenhados em uma guerra duradoura, que seria funesta às finanças do Império.

O Visconde relata seu mais ousado lance empresarial e político, realizado quando tinha apenas 36 anos de idade. Após essa iniciativa, suas relações com a Coroa e com outros governos muda de qualidade. Ele deixa de ser apenas um empresário e passa a ser alguém com um peso decisivo no contexto sul-americano.

O estuário do rio da Prata é uma enorme fenda hídrica ao sul do continente, dividindo o Uruguai e a Argentina. Tem a forma de um triângulo irregular e sua extensão alcança 219 quilômetros. A parte mais larga, no ponto em que o rio se confunde com o oceano Atlântico, alcança 290 quilômetros. Suas águas barrentas formam um sistema fluvial, através da desembocadura dos rios Paraná – o segundo maior do continente – e Uruguai. Desde os tempos coloniais, o comércio e o contrabando por ali foram intensos.

Entrando pelo Prata, embarcações podem alcançar o Paraguai, a Bolívia e o centro-oeste do Brasil. Até o final do século xviii, espanhóis e portugueses dominaram a região. No início do século seguinte, barcos ingleses marcavam sua presença, dando as cartas no comércio regional. Dominar o Rio da Prata significava apoderar-se das principais rotas comerciais de pelo menos quatro países.

Para navegar no estuário, os navios tinham de fazer escala num dos portos da entrada, os de Montevidéu ou de Buenos Aires. No final da década de 1840, a província de Buenos Aires era governada por Juán Manuel Rosas (1793–1877). O cargo tinha status de presidência da República. A partir de 1842, com o apoio das demais províncias locais, ele tornou-se uma autoridade nacional.

A política de Rosas para o Prata era parte de sua estratégia de centralização territorial e política de várias províncias autônomas, que viriam a formar a Argentina moderna. Dominar o rio, na época, equivalia a afirmar a unidade e a independência argentina e a consolidar seu poder no continente. Para isso, ele acabaria por contrariar as pretensões hegemônicas da Grã-Bretanha na região. Do lado brasileiro, era vital manter a livre navegação, pelo fato de o rio ser o melhor acesso à província do Mato Grosso.

Desde 1835, o líder argentino estabelecera um protecionismo rigoroso, o monopólio do comércio de Buenos Aires sobre o interior e o controle do Prata. Tal medida implicava também sua supremacia diante do Paraguai.24

Faltava uma peça para Rosas dar seqüência às suas pretensões: o controle do porto de Montevidéu. O Uruguai, com isso, temia por sua independência, obtida do Brasil, em 1828. Paulatinamente, a antiga Província Cisplatina passou a ser o objeto central na disputa entre Brasil e Argentina. Ingleses e franceses, de sua parte, mantinham uma frota permanentemente estacionada em Montevidéu, para garantir a passagem de seus navios. Estava armada uma explosiva teia de interesses internacionais.

Os planos de Rosas sobre o porto de Montevidéu contaram com um aliado providencial. Era o ex-presidente uruguaio Manuel Oribe (1792–1857), que governara o país entre 1835 e 1838. Alijado do poder e exilado na Argentina, Oribe era um militar que se destacara na luta pela independência.

Apoiado pelo mandatário argentino, Oribe invade o Uruguai em 1842, sitiou Montevidéu e desafia o governo do presidente Fructuoso Rivera (1784–1854), aliado do Brasil. Na cidade de Cerrito, próxima à capital, o rebelde monta um governo paralelo. Tem início a Guerra Grande, que cercaria a capital e o porto até 1851.

Enquanto o conflito se desenrola, a Província do Rio Grande do Sul está conflagrada pela Guerra dos Farrapos (1835–1845), que durante dez anos expôs tendências separatistas regionais. As fronteiras entre o Brasil e o Uruguai eram mais do que incertas. Mercadorias circulavam de um país a outro sem nenhuma fiscalização.

Apesar de buscar a neutralidade até 1843, a Corte Imperial era constantemente pressionada a intervir no Prata. Os estancieiros gaúchos desejavam a livre navegação no estuário, em busca de mercados para sua produção.

Sitiado pela Argentina e por inimigos internos e com o tesouro quebrado, o governo uruguaio desenvolveu intensa atividade diplomática, solicitando auxílio da Coroa. A França, financiadora habitual de Montevidéu, andava às voltas com as reverberações da onda revolucionária de 1848 e reduzira em muito seu auxílio.

Em meio a essa tensão, Irineu Evangelista de Sousa, amigo do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulino José Soares de Souza, Visconde de Uruguai (1807–1866), faz um de seus mais ousados lances empresariais. Percebendo que a diplomacia nunca anda desvinculada de grandes oportunidades de negócios, oferece-se para sustentar financeiramente a praça de Montevidéu na luta contra Oribe, em 1850. Em caso de vitória, teria como garantia as receitas aduaneiras do país. Em caso de derrota, perderia tudo.

A esta altura, o empresário já era um milionário, importador de tecidos e ferragens inglesas, exportador de café, fumo e açúcar, industrial e concessionário de serviços públicos.

Em março de 1850, Paulino Soares de Souza comunicou ao embaixador uruguaio no Rio de Janeiro, Andrés Lamas (1817–1891), haver encontrado quem emprestasse dinheiro e fornecesse suprimentos ao seu governo no enfrentamento com Rosas. O acordo foi mantido em sigilo, pois o Brasil mantinha relações diplomáticas com a Argentina. Isso possibilitou ao proprietário da Ponta de Areia operar uma política extra-oficial, enquanto o Brasil mantinha uma posição neutra na questão. A partir do acordo com Lamas, as empresas de Irineu passaram a fornecer inúmeros produtos a Montevidéu, entre eles roupas, armas e dinheiro.

Pouco mais de um ano depois, em 20 de março de 1851, representantes do Brasil, do Uruguai e da província argentina de Entre Rios selaram uma aliança contra Rosas. A guerra se internacionalizou com as intervenções de correntes políticas argentinas, de tropas do Império do Brasil e de militares ingleses e franceses. Oribe foi logo derrotado, no Uruguai. Em 1852, com auxílio brasileiro, Rosas foi destituído do poder por líderes de províncias rebeldes.

Quando acabou o conflito, o Uruguai estava em ruínas, a população mais pobre do que antes e suas finanças comprometidas com pesadas dívidas contraídas junto ao Brasil, à Inglaterra e à França. O acordo que pôs fim à Guerra estipulava as fronteiras com o Brasil, dava ao Império o direito de intervir em assuntos internos uruguaios e garantia a livre navegação do Prata.

A ação de Irineu fora decisiva na meta brasileira de transformar o país num semiprotetorado, submetido à sua lógica diplomática. Com isso, o empresário deu início a uma série de negócios ao sul do continente, que incluíram um banco e uma extensa propriedade agropastoril, além de tornar-se o maior credor da dívida pública uruguaia.

Após a intervenção no Prata, as atividades do empresário se diversificam ainda mais. Se até então ele se limitava a ser um comerciante de grosso e industrial em crescimento, sua primeira incursão internacional a serviço do Estado o coloca em condições de tentar passos ainda maiores. Passa a ser simultaneamente proprietário rural, industrial, comerciante, concessionário de serviços públicos e financista. Há uma confluência de interesses entre o Império e o empresário. A Carruthers de Castro & Cia. tem uma filial no Rio Grande do Sul e também comercializa com a Inglaterra, Argentina e Uruguai.

Irneu se tornaria a mais influente personalidade na política uruguaia. Mas a recuperação do investimento não foi fácil. “Achei-me comprometido com uma soma assaz forte ao débito do governo oriental e o estado econômico da república, que tive de apreciar nessa ocasião, representando um verdadeiro cadáver, ausou-me serio receio de perder”, escreve ele em sua Exposição aos credores.

Irineu é jovem e tem energia. Nos próximos quatro anos, entre 1851 e 1854, abrirá seu leque de iniciativas e lançará, quase simultaneamente, um banco, uma ferrovia, a iluminação a gás, a navegação do rio Amazonas e ampliará sua siderúrgica. Os ventos ajudavam.